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21>Represa João Penido>16.09.06 setembro 19, 2006

Posted by bttgeraes in 1.
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Ficha Técnica:

Localidade: Juiz de Fora – MG
Data: 16 de setembro de 2006
Distância Total: 32km em 6h
Reabastecimento d’água: sim
Sinal de Celular: fraco
Tipos de via:
-estrada de asfalto: 40%
-estrada de terra: 25%
-trilha em campo: 30%
-trilha em mata: 5%
Navegação: fácil
Nível de Dificuldade: médio
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As histórias contadas pelas pessoas através dos tempos sempre possuem um ingrediente especial: o ponto de vista de quem está contando. Um passeio de bicicleta, quando em grupo, é um bom exemplo de uma mesma história que pode ser contada de várias formas, pois vários foram os que participaram diretamente de suas emoções. Somente quem participa pode relatar a experiência. As tronqueiras, os mataburros transversais ou paralelos, os pequenos degraus, cada córrego, ponte, enfim, as trilhas no mato. Cada ingrediente desse tem as cores de quem enxerga. Este é um relato pessoal. Caso queira, comente ao final da leitura.

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Todas as tentativas devem ser consideradas

No sábado o sol confirmou sua presença, anunciada desde o início da semana. O reconhecimento na lagoa estava previsto para a manhã, mas muitos imprevistos atrasaram os planos. Às 11:15h da manhã encontrei a bicicleta com o pneu dianteiro furado. Desmontei a mochila pois a câmara reserva era o que estava mais no fundo. Levando uma câmara na mão empurrei a bicicleta (quando devia ter levado apenas a roda) até o posto mais próximo. O frentista gentilmente me mostrou o calibrador não funcionando. Eu já ia voltando quando ele se sensibilizou de minha ignorância, oferecendo-me sua bomba pessoal. Afinal, ele era ciclista. Os frentistas daquele posto são ciclistas.

Fiz a troca, conferindo se não existia nenhum espinho no velho pneu Hutchinson que insistia em usar, apesar dos seus 8 buracos na lateral. Voltei para casa e rearrumei as coisas adicionando, além da câmara furada que havia acabado de trocar, mais uma, que há tempos esperava reparo. Pretendia deixá-las na borracharia para pegar na volta.

Saindo pela movimentada Avenida Rio Branco, sobre o mergulhão, tradicionais estripulias. Quase na Av. Brasil, ao descer de um meio fio, eis que o pneu fura e desinfla-se instantaneamente. Volto empurrando uns três quarteirões até uma oficina de bicicletas. Lá descubro que tenho duas câmaras imprestáveis e as descarto. Remendo a que havia acabado de furar e proponho ao dono da loja (que acumulava a função de mecânico) vender-me um pneu usado. Eu tinha cinco reais e agora tenho um velho, ressecado e estreito pneu Levorin dianteiro. Abandonei na loja o velho amigo Hutchinson Alligator 26×1,95 pol. e suas histórias por várias montanhas de Minas. Volto para a rua.

Retomo o caminho subindo o Paraibuna. O sol estava mais forte do que nunca, pois passava do meio dia e meia quando cruzei as cancelas do 4ºGAC. Após um breve papo com o dono de uma incrível Monark Barra Circular customizada, que subia pela mesma estrada, rapidamente achei a variante de terra à direita. Aproveitando as sombras alcancei o mataburro de madeira que leva à entrada do curral e avistei a trilha de grama.

04739-04740-mexida.jpg

O cheiro de fumaça confirmou o que era previsível. Um incêndio – bem possivelmente no dia anterior – havia mais uma vez carbonizado a outrora verdejante vegetação, afastando a fauna. Quase tudo naquela margem da lagoa tinha virado cinzas. Apenas gaviões e outras aves de rapina fiscalizavam o chão despido, negro. Servindo de poleiro para as aves, as poucas árvores sobreviventes exibiam seus trajes de luto, carbonizado pelas chamas.

Redemoinhos de vento puxavam do chão as cinzas, formando nuvens suspensas de poeira e fuligem. A trilha serve como aceiro para o quase infalível fogo; limite entre o contrastante verde-negro da qual a paisagem se pintava. Ali venta muito, o que possivelmente ajudou a alimentar o incêndio.

47434742.jpg

O fato é que as queimadas desnudam a terra, exibindo trilhas ocultas. Várias delas se desenhavam pelas encostas, inclusive uma que eu sempre quis descobrir mas nunca tive oportunidade. Eu já havia enxergado a longa subida, talvez um quilômetro ou mais de um estreito corte na montanha. Nunca soube encontrar a entrada, no mato. Hoje a entrada da grande montanha se exibia para mim, brilhante.

brilhante.jpg

Logo no início da subida comecei a escutar um barulho estranho. O pneu dianteiro “mastigava” o chão. Como ele esvaziava lentamente, aliviei o peso e continuei pedalando. De qualquer maneira eu teria que reparar o pneu. Como logo eu estaria empurrando, pois a subida era por demais íngreme, pensei: até onde eu consigo ir? Resolvi que lá em cima faria os reparos necessários. Alcançar o topo era o objetivo do momento, e eu já havia desistido de retornar no horário planejado.

A subida se mostrou implacável. Como se não bastassem os bambus com espinhos caídos pela trilha, abatidos pelo fogo, o vento levantava fuligem e espalhava a fumaça, fazendo a sensação térmica aumentar. Avançando lentamente, o topo parecia sempre distante. Ao alcançar o terceiro platô, descobri que a subida era maior do que eu imaginava. O que eu pensei ser a subida principal era apenas sua primeira parte. A trilha continuava pela crista da montanha, e se estendia até sabe-se lá onde. Eu havia deixado a preguiça em casa, resolvi encarar o desafio. Como eu já havia subido demais e o horário já estava vencido, continuei. O pneu furado quase não fazia diferença. Nos pequenos trechos pedaláveis, a ação somente do pneu traseiro dava conta do recado.

Ao atingir o ponto extremo da pequena cadeia da qual eu percorria a crista, dei meia-volta. O ambiente era desolador por causa do incêndio, mas a paisagem ao longe continuava verdejante. A grande lagoa brilhava, no fundo do vale.

lagoa-vista-de-cima.jpg

Enchi um pouco o pneu, que conservava alguma consistência, e desci. É uma das descidas mais fortes e longas que já desci numa bicicleta. São aproximadamente dois quilômetros muito íngremes, e com os espinhos para dificultar. Sem contar o pneu dianteiro com meia-pressão e esvaziando, que num determinado momento tive que parar para consertar.

conserto.jpg

De onde estava eu via as trilhas e estradas, que desenhavam-se na paisagem calcinada, lá embaixo. O vento fustigava e as cinzas tornavam a respiração uma surpresa constante. Lá em cima os gaviões e outras aves de rapina reúnem-se para decolar nas correntes de ar.

olhando-pra-baixo.jpg

Remendei a câmara furada e quando fui encher o pneu a bomba atestou defeito. Endureceu e não bombava de jeito nenhum. Enchi como pude e continuei descendo à meia-pressão. Ao chegar aos pés da montanha tive a idéia infeliz de, antes de tentar encher o pneu, esvaziá-lo para reposicionar o bico. Quando fui encher, a bomba enguiçou de vez. Já passava das 15h quando eu ia subindo empurrando, pois o pneu estava completamente vazio. Encontrei dois freerraideros que por sorte tinham bomba. Parei para encher o pneu. Enchi, agradeci e desci. Em 100 metros o pneu furou de novo. A fita havia se soltado e a câmara se rasgou. Pulou tudo prá fora de uma vez. Por sorte meu banco estava baixo e pus logo o pé no chão. Neste momento tive quase certeza de que não deveria ter saído para pedalar. Passaram mais alguns ciclistas.

grupo-passando.jpg

Um grupo de três parou para me ajudar. Três ciclistas de óculos escuros. Uma TREK, uma GTS e uma Gary Fisher. Com muita paciência me ajudaram a remendar a fita e montar a câmara nova, meu último recurso. Eu já estava phd em trocar pneu, mas a canseira também se manifestava. A hora de voltar já havia sido adiada várias vezes e para mim já não era importante.

Os ciclistas, apressados, desceram para a lagoa e eu tentaria encontrá-los novamente. Desci no pianinho, aliviando o peso na frente para não comprometer novamente a roda dianteira. Encontrei-me com o grupo às margens da represa, onde completei o ar da câmara. Lavei canelas e braços, enegrecidos pelo carvão e procurei o rumo de casa. Faltavam 13km para o centro da cidade.

Cheguei em casa depois do pôr do sol desconfiando que aquele não era um dia de sorte. Vários perrengues mudaram meus planos. Gastei todas as minhas câmaras reserva e cheguei em casa mais tarde e muito mais cansado do que gostaria, mas cheguei inteiro. Além disso, eu havia descoberto o acesso para a trilha mais íngreme da região, e também alcançado o topo da grande montanha. Um dia de btt.

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Comentários»

1. martuse.Fornaciari - setembro 21, 2006

“Neste momento tive quase certeza de que não deveria ter saído para pedalar.” Eu ja teria voltado pra casa ha muuuito tempo.

Cara, Diogo, ce e guerreiro demais viu mano. Parabens pela dispo e pelo belo relato. Vamo que vamo.

Amplexos!

2. M@d Professor - setembro 25, 2006

Amigo Martuse: depois que a bomba abriu o bico, meu objetvo passou a ser CHEGAR EM CASA!!
= )
Valeu pelo elogio. Quem escolhe btt não escolhe tempo nem terreno.
Vamo que vamo.
Amplexo!

3. Bruno Lima - outubro 19, 2006

É Diogão vc descobriu o verdadeiro BTT, que perrengue…. porém as fotos ficaram maneiras.
Parabéns pelo belo relato das trilhas de JF e região, aguardo liberação do departamento médico para voltar a ativa.
Abraço.

4. sergio crepequer goulart - setembro 10, 2007

amigo voce e como eu. mesmo desprevinido nao fica sem se aventura e da aquele rolesao curto muito bicicleta e ja pasei por varias cituaçoes deste tipo. mas o que vale e completar o role porque os caminhos que andamos sempre aparece aquele bayk previnido e nunca deixa agente para tras espero te encontrar pelas trilhas de jf


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