jump to navigation

22>IronBiker>07.10.06 outubro 13, 2006

Posted by bttgeraes in 1.
trackback

………………………………………………………………………………………

Ficha Técnica:

Localidade: Ouro Preto / Mariana – MG
Data: 7 e 8 de outubro de 2006
Distância Total: 90km em 10h
Reabastecimento d’água: sim
Sinal de Celular: fraco
Tipos de via:
-estrada de asfalto: 2%
-estrada de terra: 48%
-trilha em campo: 25%
-trilha em mata: 25%
Navegação: fácil
Nível de Dificuldade: difícil
………………………………………………………………………………………

As histórias contadas pelas pessoas através dos tempos sempre possuem um ingrediente especial: o ponto de vista de quem está contando. Um passeio de bicicleta, quando em grupo, é um bom exemplo de uma mesma história que pode ser contada de várias formas, pois vários foram os que participaram diretamente de suas emoções. Somente quem participa pode relatar a experiência. As tronqueiras, os mataburros transversais ou paralelos, os pequenos degraus, cada córrego, ponte, enfim, as trilhas no mato. Cada ingrediente desse tem as cores de quem enxerga. Este é um relato pessoal. Caso queira, comente ao final da leitura.

………………………………………………………………………………………

BTT no IB 2006

Esse ano eu estava planejando participar de alguma competição, só pra ver qual a sensação de pedalar contra o relógio. Incentivado pelo Carlos “MOE” Moraes (o mais novo integrante do BTTGeraes, que já correu a prova 5 vezes), decidi participar do Iron Biker. Não fomos em equipe como planejado, mas o desenrolar dos fatos nos fez perceber que foi melhor assim.

Chegamos todos na sexta feira à noite na casa em Passagem de Mariana, onde morei até a adolescência. À noite, últimos tratos nas BTTs, uma bela macarronada ao molho bolonhesa e cama! Mal sabíamos o perrengue que nos aguardava dali a 10 horas.

01_img_1348.jpg

Sábado – 07 de outubro de 2006 – Ouro Preto > Mariana

8:58 da manhã. Depois de fazer a útima curvinha para chegar até o local da largada, do alto da Saveiro do Diogo vejo uma cena que será difícil sair da memória: na Praça Tiradentes em Ouro Preto, mais de 1.000 capacetes debaixo de chuva e frio. Uma movimentação frenética, muito barulho e muita gente. Nesse momento meu corpo já libera a primeira dose de adrenalina do dia, e a mais forte. Olho pro Cacá descendo do carro e ele aparenta tranquilidade. Já estávamos atrasados e fomos direto pra “vistoria” das bikes: passar num gradil, ter a pulseira marcada e nos juntar ao mar de cores.

02_img_1322.jpg

02_1_img_1323.jpg

Muito blábláblá depois por parte da organização, e após o hino nacional – executado por um guitarrista poser ao extremo – começa uma trilha sonora ensurdecedora porém MUITO estimulante. Os pêlos se arrepiam e todos gritam juntos. Tenho a impressão de fazer parte de alguma seita ou cerimônia tribal, mas não. São só 1.100 ciclistas unidos ali pelo mesmo motivo a bicicleta. É dada a largada.

Começamos o primeiro dia com a idéia de nos poupar ao máximo para o domingo, que mesmo tendo a distância menor, tinha uma altimetria muito mais forçada. Fomos bem (em termos, pois não somos “treinados”) até o km18, quando num ímpeto de solidariedade, decidimos remendar a corrente de um tiozinho (um ciclista mais velho) que não tinha ferramentas e muito menos habilidade para tal. Alguns minutos – e um saca corrente a menos – depois, seguimos em frente, num ritmo leve até demais pra uma competição.

10_euib.jpg
foto: WV Agência

caca_ib_2006_web.jpg
foto: WV Agência

Chegamos ao apoio assustadoramente atrasados, ao meio dia. Corre-corre total. Diogo pega as BTTs pra lavar, Bella oferece um isotônico, banana descascada, troca de garrafinhas e toda correria em vão: ficamos mais 1/2 hora pra consertar um elo da minha corrente que não estava “dobrando”. Tudo isso sob chuva média. Partimos, e foi a partir de 5km após o apoio que começou a peleja.

04_apoio.jpg

Após alguns trechos de single-track pedalável, inicia-se uma subida que seria a primeira de uma série altamente desgastante. Não dava pra pedalar (mesmo) e ao empurrar a BTT, nos freios e nos pneus juntava uma plasta de lama que lembrava bosta de vaca, com cerca de 20cm de diâmetro. Deviam pesar aproximadamente 3 quilos cada uma. E isso a cada 6 metros. Empurra-empurra-empurra, bate a BTT no chão; empurra-empurra-empurra a roda trava, tudo de novo. Assim por uns bons kms, e a chuva não pára. Chegávamos num top, limpávamos a BTT toda com galhinhos, achando que tinha terminado o sufoco. Depois de 5 minutos de pedal já estava tudo do mesmo jeito. O MOE ficou sem pastilhas com uma hora de empurra-bike e de qualquer modo falou que ia abortar.

09_lama.jpg
foto: Mateus Freitas

Resultado: talvez pela nossa impaciência – ou lentidão mesmo – chegamos num ponto no km39 (se bem me lembro) onde estava o temido caminhão cata-bosta (o veículo que recolhe aqueles que não conseguem terminar o percurso) acompanhado de um ônibus do evento. Isso já eram quase 3 da tarde. Os caras da organização explicaram que não seria mais permitido continuar. Logo a frente, num local de nome Garganta do Diabo a coisa estava muito pior e se seguíssemos, chegaríamos em Mariana depois de 7 da noite.

Questionamos sobre a opção de seguir normalmente, e nos disseram que não teriam responsabilidade sobre o que acontecesse a partir dalí, pois recomedavam que voltássemos. Ainda tentei convencer uma galera a seguir pelo estradão que o ônibus faria, só pra terminar pedalando, mas ninguém topou. Frustração total, todo mundo de volta pra Mariana de ônibus. Chegando na Praça da Sé, ficamos sabendo através do Humberto Guerra – amigo do MountainBikeBH – que houve alguns desvios, e que não foi necessário ter voltado de ônibus, o que só aumentou nossa tristeza e indignação.

05_img_1345.jpg

Voltamos pra casa em Passagem de Mariana xingando muito o pessoal da (des)organização. Durante a semana inteira a previsão era de chuva, e um trajeto B deveria ter sido colocado em prática – como foi feito no domingo (leia adiante). Ninguém foi ali pra fazer trekking, ainda mais carregando uma BTT de 18 quilos…

ps.: A bagunça sobre essa questão do abandono de sábado foi tanta que eu estou em 87º lugar na minha categoria, com tempo de 6 horas e um bocado de minutos. Nessa hora nem no ônibus estávamos ainda.

Domingo – 8 de outubro de 2006 – Mariana > Ouro Preto

Após o anúncio antes da largada de que o trajeto oficial de 63km seria reduzido em 14km e que não haveria mais apoio, tive a impressão de que teria gente terminando a prova com menos de duas horas. Não estava chovendo, e agora seriam 49km de Mariana a Ouro Preto. Na Praça da Sé, em Mariana, dava pra perceber que muita gente havia desistido de correr o segundo dia.

06_img_1350.jpg

Agora não tinha dessa de se poupar, era dar tudo de si e fazer o melhor possível. Eu e o MOE, como na outra largada, deixamos quase todo mundo passar pra evitar os estressados e fomos puxando um pouco mais o ritmo. Nada de chuva, uns single-tracks longos e divertidíssimos, tudo dando certo. Até que um tiozinho (outro) pára de repente num ponto de água e o Cacá se embola com ele. O MOE leva a pior, seu guidão entorta, os bar-ends saem do lugar e a cabeça esquenta. Um dedo de conversa o acalma e voltamos a pedalar, mas ele não está mais 100%.

Comecei a render um pouco mais que o Cacá e durante várias vezes nos separamos. Porém eu estava com as ferramentas e sempre nos juntávamos novamente. No sopé da “Subida da Purificação” combinamos que eu o esperaria no final pra chegarmos à Praça Tiradentes juntos.

Durante a subida, eu era devagar quase parando, mas sem empurrar. E demorava mesmo pra passar o pessoal que tava a pé empurrando, tamanha a inclinação. Cada pedalada era lenta e difícil, a paciência ditou o ritmo. Um desnível de quase 600 metros em 6km. Se estivesse com lama, como no dia anterior, teríamos uma dificuldade tremenda pra vencer este trecho. Durante a subida, pela primeira vez na prova tive a oportunidade de apreciar a paisagem local. Era legal ver os competidores dos outros estados comentando o visual, que estava mesmo lindo. Dava pra ver láááá embaixo muitas das vias que tínhamos acabado de passar e o famoso mar-de-morros sumindo no horizonte.

Depois da subida mais puxada da competição, mais alguns pequenos tops e a chegada, meio chocha, no meio do mato. Era entre 12:30 e 12:40 e fiquei satisfeito com o tempo gasto. Meu numeral era 202, e o fiscal que conferia os números gritou: “262!!!” pra quem estava anotando as chegadas num laptop. Fui lá falar que eu era o 202 e me informaram que não dava pra mudar no programa (???). Deixei registrado que meu número estava trocado.

Não sei o que aconteceu, se por causa do esforço ou porque era a primeira competição, mas fiquei muito emocionado depois da chegada, e a pressão baixou. Sentei, dei um tempo e logo o MOE apontou na descida final, dentro da mata. Empurramos as BTTs até o início da descida que conduz à Praça (que por sinal foi chatíssima, uns 3km no calçamento mais casca grossa da cidade). Por volta das 13:30 subimos no pódio armado em frente ao Museu de Ouro Preto. Recebemos a medalhinha, meio que sem saber o que fazer ali e descemos pra encontrar com nossa equipe de apoio.

07_img_1361.jpg

Minha impressão da competição é essa: você pedala bem rápido, o mais forte que consegue, até chegar num ponto X. Ali, acabou. A sensação que fica após a chegada é “pra onde eu vou agora, o que tem que fazer?”. E essa, a meu ver, é a principal diferença entre uma trilha em competição pra uma trilha-curtição. Numa modalidade, os fins justificam os meios, a todo custo. Na outra, o que vale é o caminho a ser percorrido.

Agora que provei das duas, posso dizer: estou nessa sem compromisso, pelo prazer de sentir cada lombada do caminho, de cumprir cada curva. De quando não conseguir passar por um ponto, voltar quantas vezes for necessário para conseguir. Sem pressa, porém com afinco. Sem corpo-mole, mas também sem pressão. Não digo que nunca mais participarei de nenhuma competição. Há qualidades nesse tipo de pedal também, afinal rola uma energia legal, um clima competitivo no ar. Mas por hora um Caraça ou Mingú me parecem muito mais apetitosos…

Queria deixar explícito aqui nosso agradecimento para o apoio essencial e imprescindível da Bella, Diogo, Thaís e Neném. Não é todo mundo que anima de acordar cedo dois dias seguidos e depois ficar horas debaixo de chuva esperando… esperando… esperando… pra depois ver os caras por 5 /10 minutos e arrumar tudo de volta pra casa.

08_img_1363.jpg

Grande abraço pro MOE, parceirão do peito. Mas acho q Iron pra mim num rola mais não, muito $$$ pra um fim-de-semana só.

Martuse.Fornaciari
BTTGeraes . . . . . .. .. .. … … … ….o>´o

Anúncios

Comentários»

1. Xandão - outubro 16, 2006

Verdadeiros “gerreiros” BTTGeraes !!!
Parabéns !

2. Rafael Castro - outubro 17, 2006

Agora eu também quero participar dessa,já que eu participei do resgate lá em Ouro Preto…

Abraço

3. Bruno Lima - outubro 19, 2006

Parabéns guerreiros do BTT, estive no Iron’06, e pude constatar ‘in loco’ a grande difculdade da prova.

4. Iron Biker Brasil - novembro 9, 2006

Caros Martuse e Equipe,

Parabéns pela idéia do BTTGERAES, pelo site e participação no Iron Biker Brasil 2006 – não é pra qualquer um.
Belíssima redação!

O Iron Biker é mais que uma simples competição: é um desafio pessoal que mexe fundo com a emoção, uma super aventura e uma grande oportunidade de encontrar e trocar idéias com as tribos de todo o Brasil que curtem o BTT.

O seu depoimento é muito importante para nós, que trabalhamos duro para organizar e oferecer aos participantes este grande encontro e as trilhas mais legais com toda a infra-estrutura para pedalar com segurança, pois nos ajuda a melhorar.

Esperamos que reconsidere e volte a pedalar conosco em 2007, esquecendo a competição e aproveitando toda a curtição que o evento oferece.

Atenciosamente,

Gilberto Canaan e Equipe Organizadora
Iron Biker Brasil


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: