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32>Alto do Tabuleiro>10.06.07 julho 14, 2007

Posted by bttgeraes in 1.
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Ficha técnica:

Localidade: Conceição do Mato Dentro/Santana do Riacho
Data:
10 de junho de 2007
Distância Total:
36km em 6h
Reabastecimento d’água:
sim
Sinal de Celular:
não
Tipos de via:
– estrada de terra vicinal:
50%
– trilha em campo:
45%
– trilha em mata:
5%
Navegação:
difícil
Nível de Dificuldade:
difícil
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A Soma de Todas as Trilhas

O domingo começou bem cedo para os dois exploradores. A neblina tudo cobria enquanto o café era saboreado com alguma apreensão. Aquele dia começou mais cedo no Rupestre e a movimentação acabou acordando todos na casa. Despedidos e agradecidos, partimos. Saíamos da vila de Tabuleiro voltando para leste depois para oeste, numa missão estilo roubada controlada: queríamos ver o salto do Tabuleiro por cima. Os preparativos da véspera mostraram-se providenciais pois o tempo era escasso e a estrada, longa.

Em busca da primeira referência, as tentativas renderam um local seguro para estacionar o carro e fazer a primeira base, depois do cruzeiro de madeira. Buscamos as informações finais tentando prever as dificuldades que possivelmente enfrentaríamos. As bicicletas começaram a funcionar às 10h. Cruzando alguns pastos e currais, íamos lentamente abandonando a civilização. Poucas casas, algumas cabeças de gado e plantações de eucalipto são os últimos sinais da ação humana, que ao ritmo de nossas pedaladas deixávamos para trás, assim como as marcas dos pneus na areia.

Serpenteando pela cumeeira da serra, o caminho reluzia ao sol da manhã quando o alcançamos. A cumeeira é o divisor das bacias que drenam para leste em direção ao Rio Doce, e para oeste em direção ao Rio das Velhas. Muitas variantes pelas bordas podem confundir o viajante desavisado e causar algum atraso nos campos cobertos por sempre-vivas e muitas milhares de bromélias. Além de belezas vegetais, a areia fina dos campos de altitude guarda também armadilhas. Muitos tipos de buracos ocultos e partes fofas testam sem cessar as habilidades dos ciclistas.

Muita socação e o caminho se alonga cada vez mais no horizonte. A vegetação predominante é rasteira e o sol fustiga o lombo. Intercalando leves baixadas e suaves aclives, as opcionais fazem a alegria da técnica. Ultrapassamos uma porteira alaranjada, de ferro, e seguimos sempre em frente. Logo aparece a variante à direita, marcada pela transição de areia branca para areia cinza. O traiçoeiro chão de areia fina como talco é caminho para outra grande porteira, agora de madeira. Viramos totalmente, como se quiséssemos voltar ao ponto de partida. Deixamos para trás a brisa fria dos 1300 metros de altitude da cumeada da serra para enfrentar os estilhaços pedregosos da vertente leste do Espinhaço.

O caminho é escolhido como se farejássemos o vento, e logo inicia-se uma breve descida em quartizito lascado. Este sinuoso trecho corta o primeiro capão e assim nos oferece alguma sombra. Cursos d’água correm ocultos nas bordas da trilha. São as nascentes do Ribeirão do Campo, que abastecem a Cachoeira do Tabuleiro. Toda a atenção é exigida e grandes blocos de quartzo preto afloram do chão. É muito fácil perder o controle. Força total no braços e pernas, aos poucos avançamos, e não há garantias de que vamos encontrar o salto.

De repente o ataque pára. Consultas aos satélites artificiais não são suficientes para dar certeza aos dois viajantes. Enquanto um fica entre descer a estrada ou voltar para a bifurcação na mudança das areias, o outro sugere convicto: vamos entrar nesta trilha aqui. Uma aposta no desconhecido. Coisas que somente a intuição de alguns anos vagando pelos ermos e brumas do Espinhaço, além de providenciais marcas de pneu no chão, podem explicar.

Nessas horas a concentração e o contato com a trilha são fundamentais. Areia branca e cinza misturada a cristais de quartzo. Pedras roladas e pontiagudas. Pedras grandes, pedras pequenas e pedras minúsculas. Grama verde, marrom, solta, batida, alta ou baixa. A diferença de terreno faz variar o poder de tração dos pneus. O giro também varia sem parar. Porteiras-surpresa dificultam o avanço dos bttistas.

Após investir por mais de um quarto de hora neste terreno extremo, mais uma parada e nova conferida nas referências. Que referências? A vegetação, satélites artificiais, os elementos do terreno, até o vento. Pouco tempo, pouca conversa. Momento de decisão. Nada nos dizia qual o caminho a seguir. O avançado da hora quase nos fazia aceitar que nossa chance de atingir o objetivo estava reduzida a zero. Tínhamos que retomar a marcha.

Voltamos a trilha ultra técnica na direção contrária. Os obstáculos que com muito custo haviam nos forçado a pisar no chão agora eram furiosamente vencidos pelos ciclistas, calados. As cabeças funcionando… onde erramos? Qual seria então o caminho? Onde estaria o rio que alimenta a grande queda? Tinha que estar ali…

Voltamos até a trilha principal e já íamos subindo em direção aos capões quando tivemos uma grata surpresa: Giovane e seu irmão, conduzindo 4 cabeças de gado, passavam ali numa hora providencial. Conversa de matutos. Rodeios. De repente a pergunta: poderiam nos mostrar o caminho? Responderam com sorrisos.

No encalço dos cavalos, desviávamos da poeira com as esperanças reacendidas. Os cavaleiros guiavam os animais pela estrada. Entraram pela vicinal, viraram na mesma trilha… pegaram a mesma variante de onde havíamos acabado de sair! Estávamos certos, afinal! Seguindo um pouco mais pela direita, passaram direto por onde havíamos parado, uma grande mesa natural de pedra.

Depois de cruzar o segundo capão, despediram-se de nós apontando para a esquerda e entrando em mais uma pequena mata. Éramos novamente dois viajantes deixados às próprias sortes, recolocados no caminho, com dois cavalos de alumínio prontos para concluir o feito.

O quartzo se mistura à canga que aparece para temperar o caminho. A descida esquenta e se acentua, acompanhando uma grande parede de pedra à esquerda, do outro lado de um profundo talho na montanha. Atenção para não errar a trilha principal e a calha do rio finalmente aparece. Cavada há milhares de anos, a falha por onde a água passa mostra-se como um pequeno intervalo na mata, lá embaixo.

O triunfo do acerto nos fez relevar as horas e rever a programação. O ataque até a margem é ideal para bicicletas. O terreno agora é muito inclinado e cheio de armadilhas. Procurando o caminho por entre as sempre-vivas, uma nova surpresa aparece a cada instante. Terminava ali, bruscamente, o acesso até o ponto em que abandonamos os “cavalos” e colocamos os pés no chão.

Descalços acessamos a primeira grande formação de pedra nua. Uma motocicleta estacionada acusava que tínhamos companhia. Um fiscal do Parque Municipal do Ribeirão do Campo logo apresentou-se, cumprindo as formalidades. Agora era só seguir o rio.

Um quarto de hora ou mais bancando as formiguinhas, ziguezagueando por entre as lajes de pedra e as prateleiras que projetam-se das paredes. Nossos pés sentiam como a água do Ribeirão do Campo corre gelada na pedra quente daquela ferida exposta do Espinhaço. A força do vento aumenta e, após mais uma curva, o almejado vão se descortina.


Força e experiência no contato com a pedra são fundamentais para o acesso a este crítico ponto. Todo cuidado é pouco. A sensação, o barulho, a luz, tudo é diferente. Afinal, são 273 metros de queda aos nossos pés, e há algum tempo antes estávamos lá embaixo! A euforia da primeira vez é inevitável pois a magnitude da natureza é estonteante.

A empreitada chegava em seu máximo. Cem por cento de acerto. Como pudemos quase entregar os pontos tão perto de nosso destino? O mesmo destino que colocou os cavaleiros no nosso caminho, ou nós no caminho deles. Não importa. Encontramos nosso pote de ouro aquele dia. Agora era a volta que nos esperava, rufando Espinhaço acima.

Toda nova rota muda a vida de quem a percorre, e esta foi a soma de todas as trilhas. Pelo menos até aquele dia.

Agradecemos a todos que indiretamente contribuíram para que o objetivo tenha sido alcançado. Diretamente agradecemos a Evandro Ricoy, Giovane, Renato, Tião, Hélio e toda a equipe da Pousada Rupestre.

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Comentários»

1. Daniel Ayer - julho 14, 2007

um belo depoimento, mais uma empreitada corajosa com fotos lindas de encher os olhos e um texto saboroso, capaz de transportar qualquer um para a trilha, e principalmente um chamado para uma nova aventura.

parabéns galera, ta massa o sítio e pode contar comigo pra próxima dessa ou de qualquer outra.

um abraço boas trilhas.

2. Humberto Guerra - julho 31, 2007

Muuuuito bacana o relato. Parabéns, Diogo e Guga.

3. Luiz Henrique Moreira. - junho 23, 2008

Show de bola.

Fraterno Abraço.

LHMoreira.

4. Tinim Augusto souza - janeiro 20, 2009

Ótimo relato, galera. Vcs fizeram um trecho da trilha Branca, que começa no Campo Redondo, a meio caminho de Conceição, e a alguns kms de Três Barras. Tbém já fiz esse trecho, só que a pé. Legal! Abção.


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