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46>Nova Zelândia-Motatapu>14.03.09 novembro 21, 2009

Posted by bttgeraes in 1.
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Sempre gostei de pedalar entre serras, vales e baixadas. Buscar cachoeiras e rios. Achar as passagens, as trilhas e as travessias. Em vários anos somaram-se muitas quebradas pedaladas mas apenas duas motivações: diversão e desafio.

Até que numa manhã de trabalho, meu chefe me perguntou se eu estava em forma para uma corrida de btt. Respondi que sim e o cara então me deu a vaga dele na Motatapu 2009.

Intervalo no treino.

Na sequência acionei o Vinícius Monteiro, meu parceiro do pedal em Queenstown e sugeri que ele também garantisse um lugar na largada. No final desse dia descobrimos que as vagas já estavam esgotadas. Faltavam ainda três meses para a prova e o Vinícius, assim como um outro amigo brasileiro, o Tyago Yoshida, acabariam comprando inscrições de segunda-mão algum tempo depois.

Nas semanas que antecederam a prova, busquei uma nova regulagem para mente, corpo e bike. Os rolés de fim de tarde passaram a ser chamados de treinos. Foi quando percebi que por mais que eu tentasse ser rápido, logo algum lago, rio, montanha ou por do sol, acabariam prendendo minha atenção.

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Ficha técnica:

Localidade: Wanaka|Arrowtown – Ilha Sul, Nova Zelândia
Data: 14 de março de 2009
Distância total: 50km em 4h18
Reabastecimento d’água: sim
Sinal de celular: não
Tipos de via:
– estrada de terra: 30%
– estrada vicinal/double track: 65%
– trilha simples: 5%
Navegação: Rota indicada
Nível de dificuldade: alto

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Mapa ilustrativo.

Tensão para montar as btts.

Pelas Terras Altas da Ilha Sul

As 10h00 da manhã de um sábado de céu claro, um grupo de brazucas chegou à pequena cidade de Wanaka, no sul da Nova Zelândia. Depois de cinco dias de chuva e frio em toda região, o sol voltara com força para decidir a sorte dos 2.036 ciclistas, que meses antes haviam decidido cobrir os 50km da Motatapu Icebreaker 2009. Depois de estacionarmos o carro, checamos as bicis, pegamos o chip e nos misturamos à multidão de pessoas e bicicletas coloridas que se formara às margens do imenso lago, também chamado Wanaka.

Dia brilhante para uma corrida.

Muita gente e um só objetivo.

A largada foi tão tranquila e silenciosa que chegou a ser fria, apesar da temperatura que subia rápido. À medida que o diretor de prova ia anunciando a partida de cada categoria, a massa se afunilava lentamente em direção a uma passagem na cerca. Ainda identifiquei no carregado sotaque neozelandês, a recomendação de que todos levassem água e gel suficientes, pois o calor havia passado de fator positivo para uma preocupação naquele dia.

Logo após o gargalo na cerca, um bloco compacto formado por 2.000 pessoas saiu pedalando numa estradinha de terra. Instintivamente, tentei me concentrar apenas em minhas pernas e meus pulmões. Fixei o olho no pneu traseiro do amigo melhor preparado, o Vinícius, e segui determinado a só perdê-lo de vista quando o ar acabasse.

Trecho 1: 25km de sobe e desce, sooobe e desce, sooooobe e desce.

Após abandonar o lago Wanaka, a estradinha de terra seguiu plana cortando os pastos e tomando o rumo das montanhas ao fundo. O pelotão girava unido e levantava poeira com força. As primeiras baixadas permitiram várias ultrapassagens e seguimos juntos e mais rápidos que o resto por quase 20 minutos. Logo depois Vinícius abriu três bikes de frente e sumiu.

A estrada se estreitou ao cruzar algumas nascentes. No sobe e desce típico, os trechos de subida venciam as descidas. Estava fácil ultrapassar, principalmente quando a tropa encarava mais um morro. A cada rampa que surgia, eu tentava zerar forçando como dava, e assim no topo de cada subida, mais um pequeno grupo havia sido ultrapassado.

Pelotão se aproxima para o ataque às encostas da serra.

Outro trecho plano e o pelotão se espalhou, aproximei de um riacho e logo depois da ponte de metal enferrujada, dei de cara com o primeiro dos cinco pontos de apoio. Passei direto mas li a placa: 18km percorridos e mais 32km pela frente. Com aproximadamente 1h30 de prova comecei a me perguntar qual seria o primeiro morro que me venceria. E não demorou. Um riacho mais fundo com grandes matacões no leito me desanimou a pedalar a rampa que vinha logo depois. Subi empurrando com 95% da turma.

Subida final de acesso às terras altas.

Mais um morro apenas me obrigou a desmontar da magrela e logo percebi pelo relevo que o acesso aos campos altos estava terminando. As subidas ainda eram maioria e infelizmente nesse momento, uma forte dor na lombar começou a minar a minha vontade de seguir acelerando mais forte que o bloco. Forcei por mais 30 minutos.

Trecho 2: 15km de puro xc pelos vales suspensos

Bastante cansado, cheguei no segundo ponto de apoio com 2h15 de prova. A paisagem era espetacular, o vale imenso se abria para os lados. O capim laranja, chamado Tussocs, cobria da base das montanhas até onde a vista alcançava. A linha de bikes seguia em direção a saída desse vale, mas se perdia no horizonte. Diante dessa atmosfera de  natureza mística, desmontei a bicicleta e decidi me hidratar com calma e recuperar as energias.

Água e carboidratos em gel.

A massa se espalha nos campos.

Saí do apoio 2 na cola do Tyago. A trilha é uma estrada vicinal com acesso super restrito mesmo para veículos 4×4. Como sempre acontece com estradinha sem uso, o mato cresce no meio e surge um double-track. A sensação é a mesma de se pedalar numa trilhinha tendo outra igual bem ao lado. É técnico e é rápido. Enquanto isso o piso ia variando entre terra batida, lama fresca ou lama seca.

A cada riacho cruzado, a galera chamava nos freios e reduzia marchas para primeiro zerar  uma faixa de lama preta, depois a água com pedras e finalmente, o barro preto depois. Alguns bons pegas aconteceram nesse trecho pois espaço para ultrapassar não faltava e pontos de frenagem também não.

Vinícius Monteiro curtindo o miolo da prova.

Tyago Yoshida liderando pelotão de gringos.

Mantendo o foco.

Dezenas de riachos foram cortados.

Sem dúvida esse trecho intermediário foi o mais prazeroso. Sucessivas baixadas com declives e aclives suaves onde o ritmo só era quebrado mesmo pelas inúmeras nascentes cortando o caminho. O descanso no PC 2 me fez bem e voltei descidido a seguir mais rápido e não perder o Tyago de vista. Ainda trocamos de posição duas ou três vezes, até que na última subida dos campos o cara me alcançou e passou batido. Segui tocando forte e um beliscão no disco dianteiro somado ao piso que fingia estar seco, me fez comprar um belo e amplo terreno na fazenda Motatapu.

Trecho 3: 10km morro abaixo

Finalmente,  com 3h30 de pedal, eu havia chegado ao início da descida Soho. Não via a hora de iniciar os 10km que me levariam à linha de chegada, já em Arrowtown. Não sem antes ter um respeitável ataque de cãibras.  Sentei na beira da estrada para esticar as pernas e pensei enquanto batia algumas fotos: “‘É. Tá na hora de descer dessa serra mesmo.” Bem mais relaxado, voltei a trilha e novamente meu ritmo era mais forte que a maioria do pelotão.

A descida Soho segue paralela a um dos afluentes do rio Arrow. Com largura suficiente para passar um carro, a estradinha é muito traiçoeira e a velocidade voltou a ser tentadora. Lindos pegas agora com as categorias misturadas. Bikes velhas e novas, full-suspensions, rabos-duros ou legítimas klunkers, ciclistas de pressão ou de longas travessias. Jovens, adultos e velhos, todos soltando os freios morro abaixo. Deleite total.

A descida Soho teve alguns pontos úmidos e divertidos.

Última baixada e o vale do rio Arrow à direita chama para o down-hill.

À medida que a estradinha se encaixa no vale, o declive fica mais forte e os freios esquentam rápido.

A descida finalmente chega ao nivel de base do rio Arrow. A estrada e o rio se cruzam a primeira vez e todos descem para empurrar com a água acima dos joelhos. Pedalei mais um trecho e o rio cerca a estrada de novo. Novo empurra. Achei que seria só isso e no final cortamos o rio em torno de seis ou sete vezes. Clima de fim de festa. A água azulada e limpa estava bem refrescante.

Os primeiros expectadores aparecem oferencendo uma cerveja. A estrada finalmente parece ter se desvencilhado do rio. Pedalei um trecho plano e bem largo de estrada de terra batida. “Onde está essa chegada?” e “Cadê a galera?” – me perguntava. Logo depois de uma curva a estrada mergulha pra cortar o rio mais uma vez.

Estrada de terra e o rio Arrow se misturam no fundo do vale.

Água limpa e bem refrescante pedia um banho.

A estrada some sob o rio. A chegada não está longe.

Sinais nítidos de excesso de endorfina depois de 4 horas de pedal.

Já estava de saco cheio de atravessar o rio e antes mesmo de achar ruim reparei nos barrancos logo acima da encruzilhada rio-estrada. Centenas de pessoas esperavam o fim da prova. Olhei na cara de alguns e olhei de novo pro rio. Pensei comigo: “atravesso o rio montado ou empurro?”. Reduzi pra terceira na coroa do meio, escolhi a linha que parecia ser mais rasa e firmei os punhos. A água espirrando e o barulho da galera bem em cima foi o suficiente para arrepiar os braços.

Encarei a última reta da estrada, agora cercada de gente que não acabava mais. Quase me esqueci que deveria cruzar uma linha em algum ponto. Pedalei mais um pouco e cercado de gringos que nunca havia visto na vida, terminei a prova.

É bom terminar inteiro.

Vencedor da maratona com o tempo de 2h38m

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Comentários»

1. Rodrigo - janeiro 14, 2010

Que belas montanhas, parabéns por estar em um lugar tão bonito e desafiador!

2. Angela Sampaio - janeiro 14, 2010

Experiência inesquecível!!!!!!
Valeu a garra! Parabéns por tudo e, principalmente, pela arrancada final!

3. Fernando - janeiro 14, 2010

Muito bom !!
Essa um dia eu ainda vou fazer para por no curriculo .
Abraço ai e continua postando mais eventos pois isto eh uma bela forma da gente quebrar o dia em quanto trabalha e esperar o dia de sair pro proximo pedal .
Valeu
Fernando.

4. Juliana Rosa - janeiro 14, 2010

Guguissimo, irmao meu!

Um dia ainda quero ler um livro seu!!

Arrepiei na ultima travessia do rio!

Que venham mais muitas pedaladas e escaladas pelo mundo afora! Continue na trilha!

So proud of you!

Abracao com saudade,

Ju

5. Vinícius Monteiro - janeiro 16, 2010

Aventura única, lugar mágico e parceria eterna !

Motatapu é exatamente isso aí que o meu irmão Guga trouxe aqui prá gente, de arrepiar !

Esse dia vai ficar guardado na alma, no coração e na canela !!!

Grande abraço,

Vinícius Monteiro

6. Tom - janeiro 16, 2010

Man,

finalmente saiu a rota… que parto. Mas valeu a demora. Ficou do tamanho merecido. Grandiosa, realmente algo inspirador.

btt na veia. Que em 2010 ampliemos esses horizontes pedaláveis.

See you soon.
Tom

7. Rafaela Caldas - janeiro 27, 2010

Realmente foi emocionante mesmo estando somente de expectadora!
Belas fotos e belo relato!
Um beijo

Rafa

8. hector - abril 25, 2010

nice one man!
awesome.

skippers thursday?!
🙂


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