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56>Trilha do Chafariz>14.04.13 junho 10, 2013

Posted by bttgeraes in Sem categoria.
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Os sete amigos hoje moram distante uns dos outros, cada um com seus afazeres, cada um com suas obrigações e quase sempre impossibilitados de se esbarrarem. A vontade de se encontrarem, inclusive para dar mais vida a este sítio, sempre foi uma necessidade latente nos corações e mentes de cada um. Sempre que isto é aventado aqui na internet, a animação é geral, mas as distâncias e disponibilidades não permitem que as coisas saiam como deveriam. Um dia a pergunta de um gerou a curiosidade de outro, a boa vontade de um gerou boa vontade no outro, e o que sempre pareceu difícil aconteceu. Fazia muito tempo que o encontro estava programado, e agora era iminente:

56>Trilha do Chafariz>14.04.13

Ficha técnica:

Localidade: Ouro Preto – Minas Gerais – Brasil
Data: 14 de abril de 2013
Distância Total: 40km
Reabastecimento d’água: sim
Sinal de Celular: fraco
Tipos de via:
– estrada de asfalto: 5%
– estrada de terra vicinal: 45%
– trilha em mata: 50%
Navegação: médio
Nível de Dificuldade: alto

Falta um

Falta um

Após intensa troca de emails, combinações mirabolantes e mudanças de horário, ficou marcado assim: domingo às oito horas na praça Tiradentes.

Screen-Shot

Screen-Shot

8h – Cada um vai chegando e arrumando suas tralhas. Nove ciclistas de vários lugares do Brasil, mais o pessoal do apoio. O tempo continua indeciso, porém as estrelas no céu da noite anterior já haviam dado a dica. Apresentações, preleções e conversas na praça. O apoio, neste caso, consiste em nos encontrar no ponto de almoço, em São Bartolomeu. Ouro Preto é muito fotogênica e prende as lentes dos fotógrafos, mas os pneus precisam rodar.

Paralelepípedos

Paralelepípedos

9h – Saída da praça. Já estava tarde para o que havíamos planejado. As ladeiras de pedra logo dão lugar ao asfalto da MG 356. Acostamento de estrada não é lugar muito seguro, mas é um ambiente bem conhecido por quem viaja de bicicleta por este Brasil afora. Nas estradas mineiras não é diferente, e todo cuidado é pouco.

Na estrada

Na estrada

Acostamento

Acostamento

9:40h – À direita encontramos outro caminho, agora de terra vermelha, perto do trevo. Uma terra dura, brilhosa, feita de uma poeira fina e solta quando está seca, porém muito compacta quando molhada. Um barro diferente, consistente. Ferrugem de centenas de anos que gruda nos sapatos, roupas, cascos e pneus de quem se aventura por ali.

10:35h – Subida puxada logo de cara. O grupo dispersa. O trio de frente rapidamente toma o lugar que ocuparia até o final. O segundo pelotão se pulveriza e se aglutina de acordo com o fôlego da cada um.

11h – Encontramos a boca da trilha à esquerda, bem demarcada com um poste da Estrada Real. Ele nos mostra uma picada no mato, do outro lado da cerca. Hora de tomar fôlego e entrar no estreito caminho.

A chave

A chave

“A província de Minas Gerais, que forneceu à Europa tanto ouro, diamantes e pedrarias, foi uma das últimas que os portugueses descobriram. (…) Situada entre os 13º e 23º 27’ lat S. e entre os 328º e 336º longitude, é limitada ao norte pelas províncias de Pernambuco e Bahia; ao levante pela do Espírito Santo, ao sul pelas do Rio de Janeiro e São Paulo e, enfim, pelo ocidente, pela de Goiás.(…) A Província de Minas apresenta aproximadamente a forma de um quadrilátero. Como já tive ocasião de dizê-lo, ela é dividida em porções muito desiguais por uma longa cadeia de montanhas que se estende do sul ao norte, e são matas que cobrem o lado oriental. Enquanto que a parte ocidental não apresenta, geralmente, senão pastagens. Esta última é ela própria dividida, em quase todo o comprimento, pelo rio São Francisco, rio majestoso, navegável e de imensa extensão. Outros rios, o Rio Doce, o Jequitinhonha, e o Rio Grande, oferecerão um dia os mais úteis meios de transporte à Província das Minas, que é ainda regada por uma multidão incrível de rios e regatos. Não só essa província é rica por seus diamantes e pedras preciosas, minas de ouro, ferro, chumbo etc, como também pelas suas gordas pastagens, belas florestas e fértil território que, segundo os lugares e altitudes, pode produzir a videira, a cana de açúcar e o café; o cânhamo e o algodão; a mandioca, o trigo e o centeio; mangas, pêssegos, figos e bananas. Se existe alguma região que possa dispensar o resto do mundo, será certamente a Província de Minas, quando seus inúmeros recursos forem explorados por uma população mais densa.” – Trecho do livro Viagem Pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, escrito entre 1817 e 1818 por Auguste de Saint-Hilaire.

Pela sombra

11:30h – Seguimos, um atrás do outro e história adentro, pela garganta alameda. Engolidos pela mata e acompanhando o sulco no chão, logo encontramos a borda do precipício. Dali já podemos enxergar, à direita, as curvas do horizonte, e identificar a Bacia do São Francisco, divisora das bacias do Das Velhas e do Rio Doce.

Escadaria natural

Escadaria natural

11:45hh – Com vegetação de mata atlântica, aquele trecho já mostra tanto o grau de beleza quanto o de dificuldade. Bem marcada no chão, a trilha apresenta muitas valetas e degraus, cobrando total atenção do piloto.

Tributo

Tributo

12h – Muito mato toma conta do lugar. Algum dia este caminho foi bem movimentado, mas hoje parece que poucas pessoas passam por aqui. Em 1872, a mando de Dom Rodrigo José de Menezes, três novos caminhos foram abertos nas gerais para atingir Vila Rica. Um deles é justamente este, chamado de Caminho do Chafariz, Caminho da Cachoeira ou Caminho de Dom Rodrigo. A serra de Ouro Preto, também chamada Serra da Cachoeira, era o grande obstáculo natural a ser transposto neste caminho. O objetivo principal desta estrada era facilitar a ligação entre o Palácio de Cachoeira do Campo, residência de veraneio dos governadores, com o Palácio de Ouro Preto.

Fileira

12:20h – Nas proximidades do vale onde nasce o Rio das Velhas, seguimos margeando as escarpas da Serra do Chafariz, à nossa esquerda. À direita, sempre que a mata permite, podemos avistar referências como a Serra do Capanema e o Maciço do Caraça.

Força nos braços

Força nos braços

12:47h – A trilha exige o máximo da pilotagem. O antigo caminho, apesar de bem marcado, é muito esburacado por causa da água que por ali corre regularmente. Carregar a bicicleta às vezes se torna inevitável.

Técnica

Técnica

13:00h – Alternando leves aclives e declives, atingimos o Chafariz, que à primeira vista parece uma pintura impressionista. O amarelo de sua parede principal e os borrões que acumulou durante e séculos, esquecido ali no meio do mato, contrastam com o vergel ao redor. Uma inscrição na pedra registra que em 1782 Dom Rodrigo de Menezes mandou erguer aquela obra.

No mei do mato

No mei do mato

É tempo de desmontar das bicicletas e conversar. Os nove agora caminham. Circulam tagarelando pelo antigo calçamento, falando sobre os buracos, os pequenos degraus, as valetas e os barrancos que fazem do trecho um desafio constante para as bicicletas. Trocam impressões sobre o solo, as pedras e o clima. Conversam sobre os barulhos, as plantas; sobre como a força da água molda tudo. Absorvem o lugar com todos os sentidos, respirando o ar frio e perfumado daquele recanto perdido no tempo.

Conversas

Conversas

13:30h – Partimos dali sobre o calçamento de grandes e pequenas lajes de pedra, que molhadas tornam-se uma armadilha bastante eficaz tanto para as antigas ferraduras quanto para nossos atuais pneus.

Só nas alavanquinhas

Só nas alavanquinhas

13:40h – Em alguns pontos do percurso encontramos muros e paredes de pedras empilhadas. A vegetação primária há muito já foi cortada, mas a já centenária mata secundária atingiu vários metros, sombreando a maior parte do trajeto.

Vegetação secular

Vegetação secular

14h – Agora com mais declives, as raízes saltam do solo, fruto do trabalho da água. A pilotagem, que já estava tensa, torna-se cirúrgica. Cada freada tem que ser calculada de acordo com o brilho do solo, de acordo com a cor do musgo nas paredes de terra.

Musgo

Musgo

14:20h – Serpenteando pela serra afora, em alguns pontos o antigo sulco se aprofunda até cinco metros no chão. Séculos de tráfego intenso, de cavaleiros, carros de boi e todo o tipo de pedestre, somado às enxurradas causadas pelas chuvas no alto da serra, marcaram no solo esta longa cicatriz.

Quebra-cabeça

Quebra-cabeça

14:30h- Parece que o barro vai tomar conta de tudo. Depois de uma curva bem fechada, somos surpreendidos com um tanque de pedras brancas, roladas, cheio d’água limpa que surge de repente sob os pneus. Equipamento – leia-se pernas e bicicleta – automaticamente limpo como num passe de mágica. Mais algumas curvas, pedras grandes, valetas e obstáculos até alcançarmos a estrada. Fim da trilha.

Estradinha

Estradinha

15h – Depois de passar sob a pitoresca e altíssima ponte do Salgado, chegamos ao ponto de almoço: casa da Fátima, em São Bartolomeu. O pessoal do apoio estava lá desde a manhã. Para eles o caminho havia sido relativamente curto, rodando de carro pelas estradas. O trio de frente já havia chegado há mais de uma hora, e o almoço nos esperava.

Ponte

Ponte

16h – Devorados o conteúdo das panelas, os sucos e os doces, hora de aprumar o rumo para a vila de Ouro Preto. Alguns optam por voltar de carro, mas cinco guerreiros preferem vencer a estrada vermelha do alto do selim. Dali até os pés do Tiradentes de pedra é uma intensa batalha por entre poucas descidas e muitas subidas que se estendeu através do pôr-do-sol até as 19h horas, quando todos se encontraram na praça da partida.

Tropa

Turma no Chafariz

Making off:

conissão de trente

flagrante do trio de frente exercitando a paciência

Escudo

btt cravado no mato

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Comentários»

1. Carolina Pinheiro - junho 12, 2013

Impressionante, emocionante, empolgante e alucinante foram as palavras que percorreram cada parte minha enquanto lia o relato da trilha. Foi um dia inteiro dedicado ao desbravar de um canto mágico dos Gerais, tomado pela história, contagiante pela beleza natural! Deu para sentir cada instante experimentado pela cambada de guerreiros, todos aventureiros, apaixonados pelo sabor que dá a vida sobre duas rodas mesmo quando o bicho pega. Pelo que notei, o barato de vocês é testar os limites do corpo, misturando-se com a natureza e curtindo o caminho de mansinho e com carinho. Adorei o texto e a companhia de todos durante o nosso primeiro dia a explorar os cantos de Ouro Preto e arredores. Eis que o encontro e a passagem da turma pelo lugar ficaram registrados nos anais… para a posteridade! Marcados na memória de todos já estava desde a despedida lá na praça, né? Que venha a próxima! Tô acompanhando o blog com muito gosto… dá-lhe! Beijos


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